quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ensaio Educacional sobre a Atrofia Intelectual na discussão das Cotas para Afro-descendentes e Indígenas nas Universidades Públicas












A conseqüência negativa da escravidão dos Africanos e Indígenas em nosso país é facilmente sentida por seus descendentes que atualmente buscam digna inserção social, e pode ser percebida por qualquer pessoa que utiliza simples silogismo nos dados estatísticos oferecidos pelo IBGE quanto ao tamanho da população afro-descendente em nosso país, hoje estimada em 46% da população de nosso país. Porém, quando o assunto é educação superior, a proporção é bem menor, somente 8%. Assim, partindo da premissa de que é por intermédio da Educação que se pode mudar essa triste história, muito se tem falado a respeito das cotas para afro-descendentes e indígenas em nosso país. Argumentos contrários, favoráveis, neutros e até alguns ironicamente interessantes, posicionando-se no sentido de que não há discriminação.


Quando se inicia o assunto central do presente artigo, posicionando-se de forma favorável ou desfavorável às Cotas destinadas a Afro-Descendentes e indígenas em Universidades Públicas, não em raras vezes, se escuta um fechar de ouvidos, como em uma recente propaganda veiculada nos meios de comunicação televisivos, em que um rapaz negro de sotaque estrangeiro diz escutar os estalos das travas dos carros se fechando ao atravessar na faixa de pedestre em um determinado semáforo, traduzindo aqui um verdadeiro bloqueio no caminho da linguagem, impedindo qualquer reflexão intelectual.


Partiremos de uma visão Heideggeriana, no sentido de que para uma construção intelectual bem alicerçada, necessário se faz conhecer os diversos pontos de vista sobre um determinado aspecto, por uma razão muito óbvia e a seguir exemplificada. Imaginemos que o autor desse texto seja um palestrante e o leitor seja um ouvinte sentado em uma cadeira localizada no fundo do auditório. O palestrante e o ouvinte em questão enxergam todo o restante da platéia, porém, sobre ângulos distintos, e, somente com essa noção básica, entre outras necessidades, menos importantes agora, é que se tem uma visão completa do que realmente é a platéia.


Grande parte das pessoas se apresenta com uma opinião formada a respeito das Cotas para Afro-Descendentes e indígenas em Universidades Públicas, sem nunca tê-lo refletido sobre pontos de vista distintos, e, a partir disso, já não importa mais o posicionamento que se tenha, pois não chegaremos a nenhum lugar. E qual o motivo para tal afirmação? Basta tomarmos a linguagem como o caminho, a surdez como o bloqueio e a cegueira como a ignorância dos diversos pontos de vista ou, ainda, tomar a cegueira como a falta de vontade de conhecê-los. Primeiramente, sem a linguagem, não haverá caminho, e, ainda que houvesse, a surdez o bloquearia, e, ainda que não houvesse o bloqueio, não haveria vontade para percorrê-lo. O resultado disso será chamado de atrofia intelectual, levando o homem a negar os demais pontos de vista por não compreendê-los, ficando em consonância com PASCAL para quem: “O homem nega tudo aquilo que não compreende”.


O presente texto tem o ideal de chamar a todos a se ativar nas reflexões dos assuntos que dizem respeito à convivência humana, ainda que por atitude meramente intelectual, ainda que não se leve em conta o amor, mas que se leve em conta ao menos o fato de sermos seres Aristotélicamente políticos, na medida em que da digna existência coletiva resultará a digna existência individual.


Os ativos acontecimentos históricos, ora discutidos, classificando seres humanos em vista da pigmentação de sua pele, nunca puderam se fundamentar de forma intelectiva, atividade que não pode ser considerada pior, ou melhor, do que a passividade atual, que distancia, bloqueia e proíbe o caminho para se encontrar o que talvez seja de maior importância nas relações dos animais racionais que habitam este planeta. Não escrevo sobre tolerância, pois a tolerância da forma como se propõe, é também uma atitude passiva a ser combatida. Escrevo sobre DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.


Homenagem aos Professores da Universidade São Francisco na pessoa da Professora Dra. Eunice Aparecida de Jesus Prudente, pessoa que tem em seu nome um pleonasmo, um repetir da mesma idéia, sem favor, de incomum, tal excelência. Homenagem que se estende aos nossos alunos, ativos em afirmar os Direitos Humanos, aqueles que tem como principal fator acadêmico raro elemento nos dias atuais: O ELEMENTO HUMANO.


2 comentários:

Maria disse...

O assunto parte do preconceito racial no qual todos insistem em desmentir,desacreditar ou até mesmo ignorar, é no mínimo curioso viver em um Pais tão contraditório onde aprovam o prouni para as univesidades particulares e as públicas insistem em bater na tecla "Todos somos iguais", a colocação do texto foi perfeita igualdade e dignidade acima de tudo para todos e isso se consegue com acesso a educação, acho que viverei pra ver um Brasil como dizem "onde todos são iguais" parabéns pelo texto transparente e realista.

Vanessa disse...

Parabéns ao Professor Alessandro, que mais uma vez demonstrou seu profissionalismo e competência. Seu blog é, sem dúvida, um precioso instrumento de apoio e estímulo a todos que queiram se aprofundar no estudo do Direito e da Filosofia. Os textos são atuais e muito claros...um convite à reflexão e à ação. Educar é isso! Parabéns ao amigo.